segunda-feira, 10 de abril de 2017

Bases conceituais: Acentuação gráfica



Universidade Federal do Rio de Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Faculdade de Educação
Curso de Pedagogia
Disciplina Didática da Língua Portuguesa – EDD361
Professor Doutor Marcelo Macedo Corrêa e Castro
Bases conceituais: Acentuação gráfica
Abril de 2017

Segundo Cunha (2016, p.78), junto com o alfabeto, na língua escrita lançamos mão “de certo número de sinais auxiliares, destinados a indicar a pronúncia exata da palavra [...] chamados NOTAÇÕES LÉXICAS”. O conjunto das Notações léxicas adotadas na grafia das palavras em Língua Portuguesa está esquematizado no quadro abaixo, construído com base na obra de Cunha, aqui já citada.

Sinal
Emprego
Exemplo
Acento agudo – (´)
Assinalar as vogais tônicas fechadas i e u
Assinalar as vogais tônicas abertas e semiabertas a, e, o
típico – única

caráter – café - próximo
Acento circunflexo – (^)
Indicar o timbre fechado das vogais tônicas a, e, o
câmera – gênio – bisavô
Acento grave - (`)
Indicar a crase (fusão) da preposição a com a forma feminina do artigo definido a/as e com os pronomes demonstrativos a(s), aquele(s), aquela(s), aquilo(s)

Apóstrofo – (‘ )
Assinalar a supressão de um fonema – geralmente uma vogal – no verso, em certas pronúncias populares e em palavras compostas ligadas pela preposição de
esp’rança - ‘tá bem - pau-darco
Cedilha – (ç)
Representar a fricativa linguodental surda [s] antes de a, o, u
cabeça – pescoço - açúcar
Hífen – (-)
Ligar elementos de palavras compostas ou derivadas por prefixação
Unir pronomes átonos a verbos
Separar sílabas em final de linha
ex-aluno


escreveram-me

                                           esco-larizado
Til - (~)
Nasalizar as vogais a, o
manhã - botões
Trema – (¨)
Grafar palavras estrangeiras
Günter


No que diz respeito aos critérios para o emprego da acentuação gráfica, sempre é bom lembrar que, na grande maioria dos casos, as palavras, acentuadas ou não, existem primeiramente na fala. Disso resulta que o estabelecimento da sua grafia procura reforçar marcas definidas pelo uso oral. Esse reforço serve fundamentalmente como apoio para que a leitura das palavras, especialmente as desconhecidas do leitor, esteja de acordo com sua forma falada.
Essa relação entre fala e escrita dá sustentação ao princípio geral que orienta o emprego da acentuação gráfica: marcam-se com acentos as palavras cuja tonicidade foge ao que predomina na fala. Para entender melhor tal princípio, é preciso ter em mente dois fatos: (1) a acentuação assinala a sílaba tônica, a mais forte da palavra; (2) na fala dos usuários do Português do Brasil só existem três posições possíveis para a sílaba tônica – a antepenúltima, a penúltima e a última. A classificação decorrente dessa distribuição se dá conforme o quadro abaixo.

Posição da sílaba tônica
Antepenúltima
Penúltima
Última
Classificação
Proparoxítona
Paroxítona
Oxítona

A primeira regra de acentuação aplica-se às palavras proparoxítonas: são todas acentuadas. Também conhecidas como palavras esdrúxulas, as proparoxítonas constituem um grupo minoritário na fala, porque os usuários do Português Brasileiro preferem, nesta ordem, as paroxítonas e as oxítonas.
O mesmo princípio, aplicado às palavras terminadas em -ão, por exemplo, mostra que apenas uma discreta quantidade delas não é oxítona, motivo pelo qual são acentuadas: órfão, órgão, bênção.
O resultado da aplicação desse critério de marcar o que é excepcional está consolidado sinteticamente a seguir. Recebem acento gráfico:
1.       Todas as Proparoxítonas: lâmpada, trânsito, víbora.
Todas as Proparoxítonas eventuais ou falsas (palavras que, na fala, têm pronúncia limítrofe entre proparoxítona e paroxítona): área, cárie, ciência, história, princípio.
2.       As paroxítonas terminadas em:
ã(s) > ímã/ímãs;
ão(s) > bênção/bênçãos;
i(s) > júri/dóceis;
om/on(s) > iândom/elétron/prótons;
um/uns/us > álbum/álbuns/ônus;
l > amável/difícil;
n > cânon/hífen;
ps > tríceps, fórceps;
r >caráter, éter;
x > tórax.
3.       As oxítonas e os monossílabos terminados em:
á(s) > cajá, marajás, lá, pás;
é(s) > café, através, fé, pés;
ê(s) > você(s), mês;
ó(s) > avó, cipós, só, nós;
ô(s) > avô(s), pôs;
ém > contém, porém, também;
éns (com pelo menos duas sílabas) >  armazéns
êm (3ª pessoa do plural) >  (elas/eles) contêm, detêm, têm, vêm.

4.       Os ditongos tônicos abertos em sílaba final de oxítonas e paroxítonas > anéis, chapéu, corrói, véu.
5.       Os hiatos em i e u tônicos orais desde que: (1) componham uma sílaba sozinhos ou com s; (2) sejam o segundo elemento do hiato; (3) não sejam seguidos de l, m, n, nh, r ou z > caí, caíste, egoísta, saúde, reúnem, Grajaú.
6.       As formas verbais homófonas tem (singular)/têm (plural) e vem/vêm, assim como seus derivados contém/contêm, provém/provêm.
7.       O infinitivo do verbo pôr (para marcar diferença em relação à preposição por) e a forma verbal de passado pôde (para marcar diferença em relação à forma verbal de presente pode).

Quanto ao ensino da acentuação, recomendo que se adote o mesmo conjunto de princípios para todas as questões de ortografia.

1.                   A compreensão acerca dos problemas dos estudantes com a ortografia deve ser construída a partir de algumas suposições: (a) o estudante não domina suficientemente o Sistema de Escrita Alfabética (SEA); (b) o estudante não esteve suficientemente exposto à escrita da palavra para a qual emprega uma grafia diferente daquela que consta da norma ortográfica; (c) o estudante não valoriza em sua produção textual o emprego da ortografia. Nenhuma combinação das três possibilidades aponta, a princípio, para dificuldades cognitivas de ordem mais preocupante. Ao contrário, todas são potencialmente superáveis com a exposição continuada ao uso da língua escrita.
2.                   Como convenção, a ortografia é uma tentativa de uniformizar o uso da língua em sua escrita. O resultado é um conjunto de princípios razoavelmente estáveis e de escolhas nem sempre claras. Compreendidas as relações básicas confiáveis da convenção, o estudante empregará essas relações para grafar as palavras e terá uma escrita compatível com a convenção. As irregularidades podem ser compreendidas e, em último caso, memorizadas ao longo da escolarização, respeitando-se, no ensino-aprendizagem da produção textual, uma hierarquia de aspectos na qual a excelência no emprego da ortografia está abaixo de habilidades mais complexas, como as de argumentação e estruturação, que devem ser priorizadas.
3.                   A acentuação gráfica pode, portanto, ser aprendida aos poucos, sem que os professores levem os estudantes a considerar que seus textos não têm valor porque há equívocos no emprego de acentos. As compreensões de que existem sílabas tônicas, de que elas podem estar em três posições, de que o acento marca palavras em que a sílaba tônica não está no local predominante naquele grupo devem ser construídas com calma, a fim de que os estudantes possam se apropriar do conjunto de regras aos poucos e com conhecimento das razões que fundamentam tal conjunto.
4.                   A proposição de exercícios isolados para acentuar/justificar acentuação deve ser contraposta ao princípio maior de que os textos são eventos de interação, o que significa dizer que, no uso real da língua, tais exercícios só existem em práticas escolares de treinamento/memorização e de verificação de aprendizagem. O uso da ortografia precisa ocorrer em contextos efetivos de comunicação, devendo, portanto, ser posto em prática nas atividades de produção de leitura e escrita, e não como treino em separado.



Fontes:
CUNHA, C, F, e CINTRA, L. F. L.  Nova gramática do português contemporâneo. 7ª ed. Rio de Janeiro : Lexikon, 2016.
LUFT, C. P. Novo Guia Ortográfico. 3ª ed. São Paulo : Globo, 2013.

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