Universidade Federal do Rio de
Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências
Humanas
Faculdade de Educação
Curso de Pedagogia
Disciplina Didática da Língua
Portuguesa – EDD361
Professor Doutor Marcelo Macedo
Corrêa e Castro
Bases conceituais: Acentuação
gráfica
Abril de 2017
Segundo Cunha (2016, p.78),
junto com o alfabeto, na língua escrita lançamos mão “de certo número de sinais
auxiliares, destinados a indicar a pronúncia exata da palavra [...] chamados
NOTAÇÕES LÉXICAS”. O conjunto das Notações léxicas adotadas na grafia das palavras
em Língua Portuguesa está esquematizado no quadro abaixo, construído com base
na obra de Cunha, aqui já citada.
Sinal
|
Emprego
|
Exemplo
|
Acento
agudo – (´)
|
Assinalar as vogais tônicas fechadas i e u
Assinalar as vogais tônicas abertas e semiabertas
a, e, o
|
típico – única
caráter – café - próximo
|
Acento
circunflexo – (^)
|
Indicar o timbre fechado das vogais tônicas a, e,
o
|
câmera – gênio – bisavô
|
Acento
grave - (`)
|
Indicar a crase (fusão) da preposição a com a forma feminina do artigo
definido a/as e com os pronomes
demonstrativos a(s), aquele(s), aquela(s), aquilo(s)
|
|
Apóstrofo
– (‘ )
|
Assinalar a supressão de um fonema – geralmente
uma vogal – no verso, em certas pronúncias populares e em palavras compostas
ligadas pela preposição de
|
esp’rança - ‘tá bem - pau-darco
|
Cedilha –
(ç)
|
Representar a fricativa linguodental surda [s]
antes de a, o, u
|
cabeça – pescoço - açúcar
|
Hífen –
(-)
|
Ligar elementos de palavras compostas ou
derivadas por prefixação
Unir pronomes átonos a verbos
Separar sílabas em final de linha
|
ex-aluno
escreveram-me
esco-larizado
|
Til - (~)
|
Nasalizar as vogais a, o
|
manhã - botões
|
Trema –
(¨)
|
Grafar palavras estrangeiras
|
Günter
|
No que diz respeito aos
critérios para o emprego da acentuação gráfica, sempre é bom lembrar que, na
grande maioria dos casos, as palavras, acentuadas ou não, existem primeiramente
na fala. Disso resulta que o estabelecimento da sua grafia procura reforçar
marcas definidas pelo uso oral. Esse reforço serve fundamentalmente como apoio
para que a leitura das palavras, especialmente as desconhecidas do leitor,
esteja de acordo com sua forma falada.
Essa relação entre fala e
escrita dá sustentação ao princípio geral que orienta o emprego da acentuação
gráfica: marcam-se com acentos as palavras cuja tonicidade foge ao que
predomina na fala. Para entender melhor tal princípio, é preciso ter em mente dois fatos: (1) a acentuação assinala a sílaba tônica, a mais forte da
palavra; (2) na fala dos usuários do Português do Brasil só existem três
posições possíveis para a sílaba tônica – a antepenúltima, a penúltima e a
última. A classificação decorrente dessa distribuição se dá conforme o quadro
abaixo.
Posição da
sílaba tônica
|
Antepenúltima
|
Penúltima
|
Última
|
Classificação
|
Proparoxítona
|
Paroxítona
|
Oxítona
|
A primeira regra de acentuação
aplica-se às palavras proparoxítonas: são todas acentuadas. Também conhecidas
como palavras esdrúxulas, as proparoxítonas constituem um grupo minoritário na
fala, porque os usuários do Português Brasileiro preferem, nesta ordem, as
paroxítonas e as oxítonas.
O mesmo princípio, aplicado às
palavras terminadas em -ão, por
exemplo, mostra que apenas uma discreta quantidade delas não é oxítona, motivo
pelo qual são acentuadas: órfão, órgão, bênção.
O resultado da aplicação desse critério
de marcar o que é excepcional está consolidado sinteticamente a seguir. Recebem
acento gráfico:
1.
Todas as Proparoxítonas:
lâmpada, trânsito, víbora.
Todas as Proparoxítonas eventuais ou
falsas (palavras que, na fala, têm pronúncia limítrofe entre proparoxítona e
paroxítona): área, cárie, ciência, história, princípio.
2.
As
paroxítonas terminadas em:
ã(s) > ímã/ímãs;
ão(s) > bênção/bênçãos;
i(s) > júri/dóceis;
om/on(s) > iândom/elétron/prótons;
um/uns/us > álbum/álbuns/ônus;
l > amável/difícil;
n > cânon/hífen;
ps > tríceps, fórceps;
r >caráter, éter;
x >
tórax.
3.
As
oxítonas e os monossílabos terminados em:
á(s) > cajá, marajás, lá, pás;
é(s) > café, através, fé, pés;
ê(s) > você(s), mês;
ó(s) > avó, cipós, só, nós;
ô(s) > avô(s), pôs;
ém > contém, porém, também;
éns (com pelo menos duas sílabas)
> armazéns
êm
(3ª pessoa do plural) > (elas/eles)
contêm, detêm, têm, vêm.
4.
Os
ditongos tônicos abertos em sílaba final de oxítonas e paroxítonas > anéis,
chapéu, corrói, véu.
5.
Os hiatos
em i e u tônicos orais desde que: (1) componham uma sílaba sozinhos ou
com s; (2) sejam o segundo elemento
do hiato; (3) não sejam seguidos de l,
m, n, nh, r ou z
> caí, caíste, egoísta, saúde, reúnem, Grajaú.
6.
As formas
verbais homófonas tem (singular)/têm (plural) e vem/vêm, assim como seus derivados contém/contêm, provém/provêm.
7.
O
infinitivo do verbo pôr (para marcar diferença em relação à preposição por)
e a forma verbal de passado pôde (para marcar diferença em relação à
forma verbal de presente pode).
Quanto
ao ensino da acentuação, recomendo que se adote o mesmo conjunto de princípios
para todas as questões de ortografia.
1.
A compreensão acerca dos problemas dos
estudantes com a ortografia deve ser construída a partir de algumas suposições:
(a) o estudante não domina suficientemente o Sistema de Escrita Alfabética
(SEA); (b) o estudante não esteve suficientemente exposto à escrita da palavra para
a qual emprega uma grafia diferente daquela que consta da norma ortográfica;
(c) o estudante não valoriza em sua produção textual o emprego da ortografia.
Nenhuma combinação das três possibilidades aponta, a princípio, para
dificuldades cognitivas de ordem mais preocupante. Ao contrário, todas são
potencialmente superáveis com a exposição continuada ao uso da língua escrita.
2.
Como convenção, a ortografia é uma tentativa
de uniformizar o uso da língua em sua escrita. O resultado é um conjunto de
princípios razoavelmente estáveis e de escolhas nem sempre claras.
Compreendidas as relações básicas confiáveis da convenção, o estudante
empregará essas relações para grafar as palavras e terá uma escrita compatível
com a convenção. As irregularidades podem ser compreendidas e, em último caso,
memorizadas ao longo da escolarização, respeitando-se, no ensino-aprendizagem
da produção textual, uma hierarquia de aspectos na qual a excelência no emprego
da ortografia está abaixo de habilidades mais complexas, como as de
argumentação e estruturação, que devem ser priorizadas.
3.
A acentuação gráfica pode, portanto, ser aprendida
aos poucos, sem que os professores levem os estudantes a considerar que seus
textos não têm valor porque há equívocos no emprego de acentos. As compreensões
de que existem sílabas tônicas, de que elas podem estar em três posições, de
que o acento marca palavras em que a sílaba tônica não está no local
predominante naquele grupo devem ser construídas com calma, a fim de que os
estudantes possam se apropriar do conjunto de regras aos poucos e com
conhecimento das razões que fundamentam tal conjunto.
4.
A proposição de exercícios isolados para
acentuar/justificar acentuação deve ser contraposta ao princípio maior de que
os textos são eventos de interação, o que significa dizer que, no uso real da
língua, tais exercícios só existem em práticas escolares de treinamento/memorização
e de verificação de aprendizagem. O uso da ortografia precisa ocorrer em
contextos efetivos de comunicação, devendo, portanto, ser posto em prática nas
atividades de produção de leitura e escrita, e não como treino em separado.
Fontes:
CUNHA, C, F, e CINTRA, L. F. L. Nova
gramática do português contemporâneo. 7ª ed. Rio de Janeiro : Lexikon,
2016.
LUFT, C. P. Novo Guia
Ortográfico. 3ª ed. São Paulo : Globo, 2013.
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