segunda-feira, 6 de março de 2017

Bases conceituais: Linguagem e Língua



Universidade Federal do Rio de Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Faculdade de Educação
Curso de Pedagogia
Disciplina Didática da Língua Portuguesa – EDD361
Professor Doutor Marcelo Macedo Corrêa e Castro
Conceitos básicos: Linguagem
Há muitas abordagens e dimensões a se considerar quando se trata de tentar definir a linguagem humana. Não por acaso, ela tem sido objeto de estudos das mais diferentes áreas, da Filosofia à Neurolinguística. Neste texto, trataremos apenas de estabelecer para a linguagem humana uma base conceitual que nos permita, dentro de limites aceitáveis, tratar das questões específicas do ensino de Língua Portuguesa.
Para tanto, destaca-se que a linguagem consiste, ao mesmo tempo, em uma faculdade da espécie humana e um conjunto de materializações desta faculdade. Homens e mulheres, portanto, têm a capacidade de criar sistemas de significação e, em razão dessa característica, vêm criando incessantemente linguagens diversas, apoiadas em diferentes elementos: palavras, gestos, cores etc. Nos termos do dicionário[1], linguagem é “qualquer meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais etc.”. (HOUAISS, 200, p. 1763).
No que se refere às finalidades da linguagem, igualmente há muitos estudos e reflexões, dos quais selecionamos para esta base conceitual o que propõe Travaglia (1996). Para o referido autor há três concepções básicas de linguagem. A primeira consiste na que a concebe como expressão do pensamento. A segunda considera que a linguagem se constitui como instrumento de comunicação. E a terceira trata a linguagem como forma ou processo de interação.
Consideramos que a terceira das concepções identificadas por Travaglia[2] não só, de alguma forma, abrange as anteriores, como também corresponde mais evidentemente ao uso social, e escolar, da linguagem. Nessa direção, Orlandi (1983, p.18)[3] defende a perspectiva de que a linguagem pode ser concebida como trabalho que “não tem um caráter nem arbitrário nem natural, mas necessário “, uma vez que, segundo a autora, linguagem e trabalho resultam “ da interação entre homens e realidade natural e social”.
Para trazer um primeiro olhar em direção à linguagem no contexto da educação, citamos o que aponta Geraldi[4] (2003, p.5):
Focalizar a linguagem a partir do processo interlocutivo e com este olhar pensar o processo educacional exige instaurá-lo sobre a singularidade dos sujeitos em contínua constituição e sobre a precariedade da própria temporalidade, que o específico do momento implica. Trata-se de erigir como inspiração a disponibilidade para a mudança. Focalizar a interação verbal como o lugar da produção da linguagem e dos sujeitos que, neste processo, se constituem pela linguagem significa admitir:
a)              que a  língua (no sentido sociolinguístico do termo) não está de antemão pronta, dada como um sistema de que o sujeito se apropria para usá-la segundo suas necessidades específicas do momento de interação, mas que o próprio processo interlocutivo, na atividade da linguagem, a cada vez a (re)constrói;
b)              que os sujeitos se constituem como tais à medida que interagem com os outros, sua consciência e seu conhecimento de mundo resultam como “produto” deste mesmo processo.  Neste sentido, o sujeito é social já que a linguagem não é o trabalho de um artesão, mas trabalho social e histórico seu e dos outros e é para os outros e com os outros que ela se constitui. Também não há um sujeito dado, pronto, que entra na interação, mas um sujeito se completando e se construindo nas suas falas;
c)              que as interações não se dão fora  de um contexto social e histórico mais amplo; na verdade, elas se tornam possíveis enquanto acontecimentos singulares, no interior e nos limites de uma determinada formação social, sofrendo as interferências, os controles e as seleções impostas por esta. Também não são, em relação a estas condições, inocentes. São produtivas e históricas e como tais, acontecendo no interior e nos limites do social, constroem por sua vez limites novos.
Para tratar das questões do ensino de Língua Portuguesa, vamos usar como base conceitual para a linguagem os aspectos destacados neste texto, tendo sempre como referência principal a linguagem verbal – aquela que se apoia na palavra (verbum, em latim)[5] -, em razão do protagonismo e a centralidade que ela tem no processo de desenvolvimento da cultura humana e, também, da educação em todas as suas modalidades.



Como o nosso próximo tema na sequência das Bases conceituais é Língua, tente identificar em que língua está escrito o texto abaixo.

A baposa e o rode[6]
                               Por um asino do destar uma rapiu caosa num pundo profoço do quir não consegual saiu. Um rode, passi por alando, algois tum depempo e vosa a rapendo foi mordade pelo curiosidido. "Comosa  rapadre" - perguntou - "que é que esti fazá aendo?" "Voção entê são nabe?" respondosa a mapreira rateu. Vai em a mais terreca sível de teste a histoda do nordória. Salti aqueu no foço deste pundo e guardarar a ei que brotágua sim pra mó. Porér, sem vocem quisê, como é mau compedre, per me fazia companhode". Sem pensezes duas var, o bem saltode tambou no pundo do foço. A rapente, imediatamosa, trespostas nas cou-lhes, apoifre num dos  chides do bou-se e salfoço tora do fou, enquava berranto: "Adadre, compeus".
                               MORAL: JAMIE CONFAIS EM QUÁ ESTADE EM DIFULDÉM.






[1] HOUAISS, A. e VILLAR, M. de S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
[2] TRAVAGLIA, Luiz C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo, Cortez, 1996
[3] ORLANDI, E. P. A Linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. São Paulo, Brasiliense, 1983.
[4] GERALDI, João. W. Portos de Passagem. 4ª ed. São Paulo, Martins Fontes, 2003.

[5] Verbum refere-se à palavra falada, como registrado no provérbio “Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, a escrita permanece).
[6] FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. RJ, Nórdica, 1991.


Universidade Federal do Rio de Janeiro

Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Faculdade de Educação
Curso de Pedagogia
Disciplina Didática da Língua Portuguesa – EDD361
Professor Doutor Marcelo Macedo Corrêa e Castro
Conceitos básicos: Língua
Em 1928, o humorista José Madeira de Freitas publicou, sob o pseudônimo Mendes Fradique, a Grammatica Portugueza pelo Methodo Confuso[1], na qual se encontra a seguinte definição de Língua: “Língua é um músculo chato, muito móvel, com uma ponta presa e outra solta. E ahi é que está precisamente o grande mal da humanidade: se a língua tivesse as duas pontas presas, quantos males não se evitariam no gênero humano?” (FRADIQUE, 1983, p.9).
Brincadeiras à parte, em 1916, três após a morte do seu autor, publicou-se o Curso de Linguística Geral[2], de Ferdinand de Saussure, obra que marca o início de transformações fundamentais nas concepções de Língua e, posteriormente, do seu ensino.
De acordo com a referida obra, a Língua é, “ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa mesma faculdade nos indivíduos” (SAUSSURE, 1977, p.17). Mais adiante, depois de estabelecer o entendimento de que:

[...] a língua constitui uma instituição social”, o autor apresenta uma formulação que se tornou mais conhecida: “A língua é um sistema de signos que exprimem ideias, e é comparável, por isso, à escrita, ao alfabeto dos surdo-mudos, aos ritos simbólicos, às formas de polidez, aos sinais militares etc., etc. Ela é apenas o principal desses sistemas (p.24).

Qualquer Língua, portanto, se compõe de signos, mas também de regras para que estes signos se combinem, condições que servem de base para a definição de Azeredo (2008, p.31):

As línguas são formas altamente organizadas de elaboração, expressão e comunicação de um elenco infinito de conteúdos mediante o emprego de unidades de som e de significado que se articulam segundo regras e procedimentos combinatórios de estabilidade relativa, mas necessariamente finitos[3].

Castilho (2012), por seu turno, identifica nas teorias linguísticas e gramaticais o que denominou de “quatro direções” para se tratar de Língua. A primeira aponta para a Língua como “um conjunto de produtos” a serem tratados preferencialmente por uma gramática descritiva. A segunda posiciona a Língua como “conjunto de processos mentais, estruturantes, dos quais se incumbiria uma gramática funcionalista-cognitivista. A terceira entende a Língua como um “conjunto de processos e de produtos que mudam ao longo do tempo” e, por isso, seria objeto de estudo de uma gramática histórica. E a quarta e última trataria da Língua como “conjunto de ‘usos bons’”, configurando-a como matéria de uma gramática prescritiva.
O conceito de Língua apresentado por Azeredo (2008) expressa de forma sucinta os elementos básicos necessários ao nosso trabalho em Didática da Língua Portuguesa. Já as quatro direções apontadas por Castilho (2012) indicam direções importantes na história do ensino da Língua Portuguesa. Por isso, na nossa disciplina, as duas visões serão tratadas articuladamente.


[1] FRADIQUE, Mendes. Grammatica Portugueza pelo Methodo Confuso. Rio de Janeiro: Rocco/UFES, 1985.
[2] SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral, São Paulo: Cultrix, 1977.
[3] AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2008.

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