Universidade Federal do Rio de
Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências
Humanas
Faculdade de Educação
Curso de Pedagogia
Disciplina Didática da Língua
Portuguesa – EDD361
Professor Doutor Marcelo Macedo
Corrêa e Castro
Aula: Oralidade e escrita
DIONÌSIO, Ângela Paiva e MARCUSCHI, Luiz Antônio. Princípios gerais para o tratamento das
relações entre a fala e a escrita. IN: MARCUSCHI, Luiz. Fala e
escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. Disponível em
<http://www.ufpe.br/ceel/e-books/Fala_Escrita_Livro.pdf>
1.Um
ponto de partida: falamos mais do que escrevemos
Uma das posições defendidas nos
ensaios aqui apresentados é a de que não há razão alguma para desprestigiar a
oralidade e supervalorizar a escrita. Também não há razão alguma para continuar
defendendo uma divisão dicotômica entre fala e escrita nem se justifica o
privilégio da escrita sobre a oralidade. Ambas têm um papel importante a
cumprir e não competem. Cada uma tem sua arena preferencial, nem sempre fácil
de distinguir, pois são atividades discursivas complementares. Em suma,
oralidade e escrita não estão em competição. Cada uma tem sua história e seu
papel na sociedade (p.15).
Nossa
intenção é mostrar que os usos da língua são variados, ricos e podem ser muito
criativos. Isso não equivale, no entanto, a defender um vale-tudo, pois a
variação tem um limite que não pode ser ignorado. Mesmo quando tomada como um
conjunto de práticas discursivas, a língua constitui-se de um sistema de regras
que lhe subjaz e deve ser obedecido. Do contrário, as pessoas não se
entenderiam (p.16)
2. Uma primeira
sistematização das questões centrais
(a) As
relações entre oralidade e escrita se dão num contínuo ou gradação perpassada
pelos gêneros textuais, e não na observação dicotômica de características
polares (p.17).
(b) As
diferenças entre oralidade e escrita podem ser melhor observadas nas atividades
de formulação textual manifestadas em cada uma das duas modalidades, e não em
parâmetros fixados como regras rígidas (p.17).
(c) As
estratégias interativas com todas as atividades de contextualização, negociação
e informatividade não aparecem com as mesmas marcas na fala e na escrita (p.17).
(d) É
impossível detectar certos fenômenos formais diferenciais entre a oralidade e a
escrita que sejam exclusivos da escrita ou da fala (p.18).
(e) Tanto
a fala como a escrita variam de maneira relativamente considerável (p.19).
(f) As
diferenças mais notáveis entre fala e escrita estão no ponto de vista da
formulação textual (p.20)
(g) A
atividade metaenunciativa e os comentários que se referem à situação de
enunciação são mais frequentes na fala que na escrita (p.20).
(h)
Tanto a fala como a escrita seguem o mesmo sistema linguístico (p.20)
(i) Fala
e escrita distinguem-se quanto ao meio utilizado (p.21).
(j) Fala
e escrita fazem um uso diferenciado das condições contextuais na produção
textual (p.22)
(k) O
tempo de produção e recepção, na fala, é concomitante e, na escrita, é defasado
(p.22).
3. O estudo
sistemático da relação oralidade e escrita é recente
Na
verdade, toda a análise da relação entre fala e escrita ficou bastante
prejudicada na linguística, em função da ideia de que a fala se dava no âmbito
do uso real da língua, o que impedia um estudo sistemático pela enorme
variedade. Como a linguística se dedicava preferencialmente aos fenômenos do sistema
da língua, não havia interesse na investigação no âmbito da fala ou da
escrita quanto à manifestação empírica do uso da língua. Tratava-se de analisar
o sistema, e não os usos e o funcionamento da língua. Hoje, a chamada
linguística funcional que se ocupa dos usos dá grande atenção para os fenômenos
reais do funcionamento da língua.
A rigor, a linguística não
analisava nem a fala nem a escrita. Quando observava os textos orais, analisava
uma fala idealizada, depurada de certas características que não se afiguravam,
historicamente, como pertencentes a alguma norma.
4. Aspectos
sistemáticos da relação entre fala e escrita
A
formalidade ou a informalidade na escrita e na oralidade não são aleatórias,
mas se adaptam às situações sociais.
Essa noção é de grande importância para perceber que tanto a fala como a
escrita têm realizações estilísticas bem variadas com graus de formalidade
diversos. Não é certo, portanto, afirmar que a fala é informal e a escrita é
formal.
Seria também equivocado
correlacionar a oralidade com a contextualidade, implicitude, informalidade,
instabilidade e variação, atribuindo à escrita características de
descontextualização, explicitude, formalidade, estabilidade e homogeneidade.
Hoje ninguém mais aceita essa divisão estreita porque uma simples análise da
produção textual escrita desmente isso. Todos os usos da língua são situados,
sociais e históricos, bem como mantém alto grau de implicitude e
heterogeneidade, com enorme potencial de envolvimento. Fala e escrita são
envolventes e interativas, pois é próprio da língua achar-se sempre orientada
para o outro o que nega ser a língua uma atividade individual (p.25).
E com
isso postulamos que a língua em uso, como atividade humana é: (a) universal:
todos os povos têm uma língua e com ela referem, significam, agem,
contextualizam, expressam suas ideias, etc.;
(b)
histórica: do ponto de vista das línguas individuais, cada uma é
histórica e tem surgimento no tempo. Assim foi com o grego, o latim, o
português, o alemão, o russo, etc. Também, do ponto de vista dos usos das
línguas, temos uma tradição de formas textuais surgidas ao longo das práticas
comunicativas; (c) situada: todo texto é produzido por alguém situado em
algum contexto, e toda produção discursiva é localizada. Isso permite que
ocorra a variação. Esses três aspectos impedem analisar a fala e a escrita como
dois mundos diferentes. Elas são duas maneiras de textualizar e produzir
discursos (p.26).
5. A questão da
supremacia da fala ou da escrita
Não há por que negar que a fala é
mais antiga que a escrita e que esta lhe é posterior e em certo sentido
dependente. Assim, a oralidade é uma prática social de grande penetração. Mesmo
considerando a enorme e inegável importância que a escrita tem nos povos e nas
civilizações ditas “letradas”, continuamos, como bem observou Ong (1998), povos
orais. E mesmo os indivíduos mais letrados de uma sociedade falam muito mais do
que escrevem. Veja-se que, em instituições de intenso uso da escrita como
escolas, universidades e institutos de pesquisa, fazemos um uso muito mais
intenso da fala do que da escrita, e os gêneros textuais orais são em maior
número em todas elas. A oralidade jamais desaparecerá e sempre será, ao lado da
escrita, o grande meio de expressão discursiva e de atividade comunicativa
(p.27)
6. Dissolvendo algumas
dicotomias.
A
questão é: qual seria a forma mais adequada de encarar as relações entre
oralidade e escrita contemplando ao mesmo tempo os aspectos linguísticos,
discursivos, cognitivos e sociais? Não há uma resposta consensual, mas três são
as possibilidades imediatamente à mão:
i. análise de cada modalidade
isoladamente
ii.
análise na
imanência linguística
iii.
análise da
relação com categorias específicas de cada
modalidade (p.29-30).
Para
um trabalho mais detido a respeito da oralidade e escrita, seria útil uma
investigação detida sobre os usos da escrita na vida cotidiana atual. Não
sabemos qual a abrangência da escrita na vida das pessoas, seja em termos de
tempo dispendido com a leitura e a escrita, seja nos gêneros textuais
produzidos ao longo do dia. Estes parecem ser bem menos do que se imagina e
diversos daqueles que a escola em geral trabalha. Na realidade, essas questões
deveriam ser motivo de reflexão para todos os que se acham de algum modo
engajados na solução de problemas educacionais (p.30).
Exercício
1: Indique a diferença de sentido entre os períodos de cada par.
1.Os
alunos da turma 22 que têm menos de sete anos serão vacinados.
2.Os
alunos da turma 22, que têm menos de sete anos, serão vacinados.
3.
Os jogos de ontem que foram disputados debaixo de intenso calor terminaram
empatados.
4 Os
jogos de ontem, que foram disputados debaixo de intenso calor, terminaram
empatados.
5.
Os clientes que já foram cadastrados receberão o boleto em suas residências.
6.
Os clientes, que já foram cadastrados, receberão o boleto em suas residências.
Exercício 2: Substitua a palavra em negrito por uma mais precisa.
1. A
Companhia de Águas e Esgoto fará um
canal para escoamento das águas pluviais.
2. Paulinho
da Viola fez vários dos mais belos
sambas que conheço.
3. Os
publicitários gostam de fazer
anúncios que exploram a ambiguidade.
4. O
trabalho que fiz para a disciplina Didática da Língua Portuguesa ficou
muito bom.
5. Durante a
cerimônia, ela vai fazer um discurso
em homenagem aos seus pais.
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