quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Aula: Oralidade e escrita

Universidade Federal do Rio de Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Faculdade de Educação
Curso de Pedagogia
Disciplina Didática da Língua Portuguesa – EDD361
Professor Doutor Marcelo Macedo Corrêa e Castro
Aula: Oralidade e escrita
DIONÌSIO, Ângela Paiva e MARCUSCHI, Luiz Antônio. Princípios gerais para o tratamento das relações entre a fala e a escrita. IN: MARCUSCHI, Luiz.  Fala e escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. Disponível em <http://www.ufpe.br/ceel/e-books/Fala_Escrita_Livro.pdf>
1.Um ponto de partida: falamos mais do que escrevemos
Uma das posições defendidas nos ensaios aqui apresentados é a de que não há razão alguma para desprestigiar a oralidade e supervalorizar a escrita. Também não há razão alguma para continuar defendendo uma divisão dicotômica entre fala e escrita nem se justifica o privilégio da escrita sobre a oralidade. Ambas têm um papel importante a cumprir e não competem. Cada uma tem sua arena preferencial, nem sempre fácil de distinguir, pois são atividades discursivas complementares. Em suma, oralidade e escrita não estão em competição. Cada uma tem sua história e seu papel na sociedade (p.15).
Nossa intenção é mostrar que os usos da língua são variados, ricos e podem ser muito criativos. Isso não equivale, no entanto, a defender um vale-tudo, pois a variação tem um limite que não pode ser ignorado. Mesmo quando tomada como um conjunto de práticas discursivas, a língua constitui-se de um sistema de regras que lhe subjaz e deve ser obedecido. Do contrário, as pessoas não se entenderiam (p.16)

2. Uma primeira sistematização das questões centrais
(a) As relações entre oralidade e escrita se dão num contínuo ou gradação perpassada pelos gêneros textuais, e não na observação dicotômica de características polares (p.17).
(b) As diferenças entre oralidade e escrita podem ser melhor observadas nas atividades de formulação textual manifestadas em cada uma das duas modalidades, e não em parâmetros fixados como regras rígidas (p.17).
(c) As estratégias interativas com todas as atividades de contextualização, negociação e informatividade não aparecem com as mesmas marcas na fala e na escrita (p.17).
(d) É impossível detectar certos fenômenos formais diferenciais entre a oralidade e a escrita que sejam exclusivos da escrita ou da fala (p.18).
(e) Tanto a fala como a escrita variam de maneira relativamente considerável (p.19).
(f) As diferenças mais notáveis entre fala e escrita estão no ponto de vista da formulação textual (p.20)
(g) A atividade metaenunciativa e os comentários que se referem à situação de enunciação são mais frequentes na fala que na escrita (p.20).
(h) Tanto a fala como a escrita seguem o mesmo sistema linguístico (p.20)
(i) Fala e escrita distinguem-se quanto ao meio utilizado (p.21).
(j) Fala e escrita fazem um uso diferenciado das condições contextuais na produção textual (p.22)
(k) O tempo de produção e recepção, na fala, é concomitante e, na escrita, é defasado (p.22).

3. O estudo sistemático da relação oralidade e escrita é recente
Na verdade, toda a análise da relação entre fala e escrita ficou bastante prejudicada na linguística, em função da ideia de que a fala se dava no âmbito do uso real da língua, o que impedia um estudo sistemático pela enorme variedade. Como a linguística se dedicava preferencialmente aos fenômenos do sistema da língua, não havia interesse na investigação no âmbito da fala ou da escrita quanto à manifestação empírica do uso da língua. Tratava-se de analisar o sistema, e não os usos e o funcionamento da língua. Hoje, a chamada linguística funcional que se ocupa dos usos dá grande atenção para os fenômenos reais do funcionamento da língua.
A rigor, a linguística não analisava nem a fala nem a escrita. Quando observava os textos orais, analisava uma fala idealizada, depurada de certas características que não se afiguravam, historicamente, como pertencentes a alguma norma.
4. Aspectos sistemáticos da relação entre fala e escrita
A formalidade ou a informalidade na escrita e na oralidade não são aleatórias, mas se adaptam  às situações sociais. Essa noção é de grande importância para perceber que tanto a fala como a escrita têm realizações estilísticas bem variadas com graus de formalidade diversos. Não é certo, portanto, afirmar que a fala é informal e a escrita é formal.
Seria também equivocado correlacionar a oralidade com a contextualidade, implicitude, informalidade, instabilidade e variação, atribuindo à escrita características de descontextualização, explicitude, formalidade, estabilidade e homogeneidade. Hoje ninguém mais aceita essa divisão estreita porque uma simples análise da produção textual escrita desmente isso. Todos os usos da língua são situados, sociais e históricos, bem como mantém alto grau de implicitude e heterogeneidade, com enorme potencial de envolvimento. Fala e escrita são envolventes e interativas, pois é próprio da língua achar-se sempre orientada para o outro o que nega ser a língua uma atividade individual (p.25).
E com isso postulamos que a língua em uso, como atividade humana é: (a) universal: todos os povos têm uma língua e com ela referem, significam, agem, contextualizam, expressam suas ideias, etc.;
(b) histórica: do ponto de vista das línguas individuais, cada uma é histórica e tem surgimento no tempo. Assim foi com o grego, o latim, o português, o alemão, o russo, etc. Também, do ponto de vista dos usos das línguas, temos uma tradição de formas textuais surgidas ao longo das práticas comunicativas; (c) situada: todo texto é produzido por alguém situado em algum contexto, e toda produção discursiva é localizada. Isso permite que ocorra a variação. Esses três aspectos impedem analisar a fala e a escrita como dois mundos diferentes. Elas são duas maneiras de textualizar e produzir discursos (p.26).
5. A questão da supremacia da fala ou da escrita
Não há por que negar que a fala é mais antiga que a escrita e que esta lhe é posterior e em certo sentido dependente. Assim, a oralidade é uma prática social de grande penetração. Mesmo considerando a enorme e inegável importância que a escrita tem nos povos e nas civilizações ditas “letradas”, continuamos, como bem observou Ong (1998), povos orais. E mesmo os indivíduos mais letrados de uma sociedade falam muito mais do que escrevem. Veja-se que, em instituições de intenso uso da escrita como escolas, universidades e institutos de pesquisa, fazemos um uso muito mais intenso da fala do que da escrita, e os gêneros textuais orais são em maior número em todas elas. A oralidade jamais desaparecerá e sempre será, ao lado da escrita, o grande meio de expressão discursiva e de atividade comunicativa (p.27)
6. Dissolvendo algumas dicotomias.
A questão é: qual seria a forma mais adequada de encarar as relações entre oralidade e escrita contemplando ao mesmo tempo os aspectos linguísticos, discursivos, cognitivos e sociais? Não há uma resposta consensual, mas três são as possibilidades imediatamente à mão:
i. análise de cada modalidade isoladamente
ii. análise na imanência linguística
iii. análise da relação com categorias específicas de cada
modalidade (p.29-30).
Para um trabalho mais detido a respeito da oralidade e escrita, seria útil uma investigação detida sobre os usos da escrita na vida cotidiana atual. Não sabemos qual a abrangência da escrita na vida das pessoas, seja em termos de tempo dispendido com a leitura e a escrita, seja nos gêneros textuais produzidos ao longo do dia. Estes parecem ser bem menos do que se imagina e diversos daqueles que a escola em geral trabalha. Na realidade, essas questões deveriam ser motivo de reflexão para todos os que se acham de algum modo engajados na solução de problemas educacionais (p.30).

Exercício 1: Indique a diferença de sentido entre os períodos de cada par.
1.Os alunos da turma 22 que têm menos de sete anos serão vacinados.
2.Os alunos da turma 22, que têm menos de sete anos, serão vacinados.
3. Os jogos de ontem que foram disputados debaixo de intenso calor terminaram empatados.
4 Os jogos de ontem, que foram disputados debaixo de intenso calor, terminaram empatados.
5. Os clientes que já foram cadastrados receberão o boleto em suas residências.
6. Os clientes, que já foram cadastrados, receberão o boleto em suas residências.
Exercício 2: Substitua a palavra em negrito por uma mais precisa.
1. A Companhia de Águas e Esgoto fará um canal para escoamento das águas pluviais.
2. Paulinho da Viola fez vários dos mais belos sambas que conheço.
3. Os publicitários gostam de fazer anúncios que exploram a ambiguidade.
4. O trabalho que fiz para a disciplina Didática da Língua Portuguesa ficou muito bom.

5. Durante a cerimônia, ela vai fazer um discurso em homenagem aos seus pais.

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